quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Primeira visita técnica da turma de PCCU ao Teatro Amazonas. Por Joise Simas

No dia 13 de fevereiro de 2016, realizamos uma visita técnica ao Teatro Amazonas. Magnífico e imponente, ele é a mais importante representação da história e cultura amazonense e para entendê-lo é preciso fazermos uma viagem ao passado sem sair do presente.
Através do teatro em si ou de objetos nele contidos, podemos fazer uma fazer essa viagem até a Belle Époque. Esta foi uma época do apogeu do “ouro branco amazônico” (período áureo da borracha) onde um novo modo de produção foi implantado e com ele houveram transformações das relações sociais. Essas transformações refletiram em traços de diversos costumes e culturas, os quais refletem no Teatro Amazonas, a materialização dos sonhos.
Esta viagem ao passado só é possível diante das representações culturais. Segundo a autora Sandra Pesavento é possível
resgatar a cidade através das representações, entendendo o fenômeno urbano como um acúmulo de bens culturais (Argan, 1992). Ora, considerando a cultura como uma rede de significados socialmente estabelecidos (Geertz, 1981), a cidade é o espaço por excelência para a construção desses significados, expressos em bens culturais. (PESAVENTO, 1995, p. 281).

O Teatro Amazonas como um bem cultural carrega consigo um significado importante, uma parte da história, da cultura e a partir desses significados vamos viajar a partir de agora desvendando cada espaço deste lugar que é encantador.

1.           Primeiras aproximações
Em 2012 realizei minha primeira visita ao Teatro Amazonas, foi simplesmente um momento mágico. Ao adentrar neste espaço, senti-me numa viagem na história. A cada vez que retorno ao Largo de São Sebastião, onde o Teatro abraça todo esse cenário magnífico, paro para admirar sua beleza.
Ao chegar à Praça São Sebastião (figura 1), sua presença é logo notada. De todos os ângulos se podem ter belas fotografias, pode-se ainda aproveitar como cenário a copa das árvores, ainda assim, o Teatro Amazonas (figura 2) sempre roubará a cena.
A praça e o Teatro dançam ao som da mesma canção e constituem um par arquitetônico de singular harmonia. A praça favorece o entendimento do lugar do Teatro na Cidade e o Teatro favorece a compreensão do lugar da praça.
O calçamento da praça em pedras brancas e pretas desenha uma moderna composição de sinuosas, simbolizando o encontro das águas do Rio Negro com as do Solimões. No centro da praça, o monumento comemorativo da Abertura dos Portos do Amazonas sugere que o Teatro é fruto do comércio internacional e que a Abertura dos Portos está intimamente ligada à vida cultural da cidade (fragmento de um pôster afixado na parede do Teatro no terceiro pavimento)


Figura 1 - Praça São Sebastião

Figura 2- vista frontal do Teatro Amazonas

  












Agora, em 2016, retorno com olhar de pesquisadora. Subo as escadas de acesso. Dezesseis degraus e ele vai crescendo à minha fronte. Deparo-me com um jardim e duas estátuas, uma de cada lado. Agora a curiosidade me leva a ver o que elas representam. São: Euterpe (figura 3) e Calliope (figura 4).



Figura 3 - à esquerda, Euterpe – Musa da Música
Figura 4 - Calliope – Deusa da Poesia Épica


2.           2. A visita técnica
A visita teve início às 14:30h com uma mediadora do teatro. Primeiramente assistimos a uma exposição feita por ela nos contando a história do Teatro Amazonas. Segundo ela, o Teatro Amazonas foi construído num período socioeconômico conhecido como “ciclo da borracha” ou “período áureo da borracha”. Nesta época, recebemos muitas influências da Europa, principalmente da França.
O projeto do Teatro Amazonas foi apresentado no ano de 1881 por um político chamado A. J. Fernandes Junior. Neste projeto, segundo ela, ele queria trazer um pedaço europeu para a Amazônia. Naquela época já haviam teatros, mas não eram tão refinados, luxuosos, que pudessem trazem um pouco do requinte europeu para cá, para que dessa maneira, os chamados barões da borracha pudessem se sentir mais a vontade aqui. O projeto foi aprovado, e, no ano de 1884, foi lançada a pedra de fundação e começaram as construções. Mas houveram alguns problemas com as casas de engenho, com os responsáveis pelas construções e isso prejudicou o andamento das obras do teatro e então a obra ficou paralisada durante oito anos.
A obra foi retomada no governo de Eduardo Ribeiro. Ele foi o primeiro governador a ser eleito aqui no estado do Amazonas e o primeiro negro a ser eleito no país. Seu governo foi durante os anos de 1892 a 1896. Ele foi o responsável por grandes transformações na cidade de Manaus. Ele foi o responsável por uma peça muito importante no teatro Amazonas que é a cúpula.

2.1         Salão de espetáculos


Iniciamos nossa visita ao salão de espetáculos (figura 5).
Figura 5 - Salão de Espetáculos
Sua beleza é encantadora. Ele tem o formato de uma lira (instrumento musical), possui vinte e duas colunas (vieram de uma região de Glasgow, da Escócia) que representam as cordas da lira. Acima das colunas temos vinte e dois estandartes que fazem homenagem a grandes artistas mundiais, por exemplo: Shakespeare, Beethoven, Mozart, etc. Acima dos estandartes temos as máscaras que são conhecidas como carrancas e fazem homenagem ao antigo teatro grego, mas não se sabe ao certo quais as emoções que elas estão transmitindo (figura 6).

 Figura 6 - coluna do salão de espetáculos

O grande responsável pelo salão de espetáculos (ver figura 5) foi Crispim do Amaral, um artista pernambucano que se formou nas melhores escolas de arquitetura tanto da Itália, quanto na França.
Em 1974 houve uma grande restauração no teatro, e ela é conhecida como “a maior restauração”. Nesta restauração, foram instalados os ar condicionados, e com isso, as cadeira originais foram trocadas devido ao ressecamento. Elas eram deitas de um material chamado Palhinha da Índia.
Neste mesmo ano, foi instalado o fosso que é o palco da orquestra e tem um subterrâneo de três metros. Ele desce três metros e sobe três metros.
No século XIX, havia uma grande divisão social até mesmo no teatro. Na plateia ficavam as pessoas de menor poder aquisitivo, e quanto mais alto o camarote, mais poder a pessoa tinha. Uma curiosidade: quanto mais alto, pior a visão, porém eles não estavam interessados em ver os espetáculos, mas sim em serem vistos, mostrar suas roupas, suas jóias.
Os camarotes ao lado do palco são chamados de “bispos”. Na época eles eram leiloados. Desse lugar se tem a pior visão do espetáculo, mas como já falado anteriormente, eles queriam ser vistos, e este era o melhor local para isso. Hoje em dia, é diferente. Os valores de inverteram. A plateia hoje é mais cara e dependendo do espetáculo, os camarotes chegam a ser gratuitos.
Ao olharmos para o teto (ver figura 7) é como se estivéssemos de baixo da torre Eiffel de Paris.
Figura 7 - Visão do teto do salão de espetáculos

Nos quatro cantos dessa torre, temos as alegorias à arte. À esquerda temos a dança, acima a tragédia grega, à direita as musas com a música e, acima do palco tem a mistura das três imagens que fazem a mistura perfeita através da ópera na qual se tem um busto sendo coroado por um anjo e esse busto é Carlos Gomes, um dos grandes compositores e maestros brasileiros. Ele criou a ópera “O Guarani” que seria apresentada no teatro no dia da inauguração, mas ele faleceu antes disso e a ópera apresentada foi “La Gioconda”.
A capacidade inicial do Teatro Amazonas era de 701 pessoas, mas foi diminuído pra 689 por motivos de som, iluminação, entre outras coisas. Essa quantidade é dividida em: plateia, frisas (camarote térreo), camarotes de primeiro, segundo e terceiro pavimento. Cada frisa e camarote tem capacidade para cinco pessoas.

2.2      Acessibilidade
Percorremos todo o Teatro Amazonas, mas em nenhum momento encontramos rampas de acesso para deficientes físicos. A única rampa encontra-se para acesso do salão de espetáculos, porém a rampa não tem a devida inclinação para que um cadeirante tenha facilidade no acesso. Para os demais pavimentos, o acesso é somente por via de escadas.

2.2         Primeiro Pavimento









No primeiro pavimento conhecemos os camarotes e podemos ver alguns manequins usando fantasias das óperas já apresentadas no Teatro (ver figura 8, 9 e 10). Estas fantasias foram utilizadas na ópera La Gioconda no X Festival Amazonas de Ópera e na ópera Manon Lescaut no XVIII Festival Amazonas de Ópera.
Figura 8 - Fantasias de óperas apresentadas no Festival Amazonas de Ópera
Figura 9 - Fantasias de óperas apresentadas no Festival Amazonas de Ópera
Figura 10 - Fantasias de óperas apresentadas no Festival Amazonas de Ópera
Também podemos ver a maquete do Teatro (figura 11) feita com 30 mil peças de Lego em 7 tons de cores, medindo 1,15 cm por 1,90 cm de comprimento e 1,10 cm de altura. Ela foi doada pela empresa Recofarma Indústria do Amazonas Ltda. em março de 2001, sendo exposta ao público em julho de 2006.

Figura 11 - Maquete do Teatro Amazonas feita de lego

  
Tivemos acesso aos camarotes e em seguida fomos levados até o outro lado do mesmo pavimento. Trata-se do Salão Nobre (figura 12).

 
Figura 12 - Salão Nobre

 O piso deste salão foi feito com uma técnica chamada Marchetaria. Nesta técnica não é necessária a utilização nem de pregos, cola ou parafusos, pois as peças são encaixadas. São certa de 12 mil peças de madeira que formam um grande quebra-cabeças de quatro tipos de madeira diferente: nogueira, mogno, bordô e carvalho. No salão nobre há essas colunas que são de ferro fundido na sua parte externa contém gesso e ela foi pintada pra representar o mármore e a sua base é de mármore de carrara.
O responsável pelo salão nobre foi Domenico De Angeles, ele era um artista italiano, então, por conta disso há algumas influências italianas no salão. Ele teve como principal inspiração a fauna da Amazônia. Se visualizarmos ao redor do salão, podemos observar pinturas de animais, plantas, rios, com exceção da pintura maior que foi uma homenagem a “O Guarani”, ópera de Carlos Gomes e obra literária de José de Alencar.
Há também no salão nobre dois espelhos franceses que ficam de frente um pro outro, que dão a impressão de se estar em um corredor infinito. Era uma forma também de deixar o salão maior.  Há ainda busto de poetas, romancistas, cuspideiras. Um mezanino fica ao redor do salão, esta era outra forma de segregação social, pois os de maior poder que ficavam no salão não gostavam de se misturar com outras camadas sociais mais baixas. Era onde ficavam os músicos e o local era escuro, a fim de que eles fossem apenas ouvidos e não vistos.
No teto há uma bela pintura chamada “A Glorificação das Belas Artes (figura 13).
Figura 13 - Pintura no teto do salão nobre
 Faz uma homenagem às belas artes, à dança, à música e ao teatro.  E nessa pintura temos esse anjo, chamado Glória, com vestido dourado e estrela na cabeça coroando as belas artes da Amazônia. Glória é feita com a mesma técnica utilizada na pintura de Monalisa, ou seja, se fitarmos nossos olhos nos olhos de glória e atravessarmos o salão, vamos ter a impressão como se ela estivesse nos seguindo com o olhar

2.3         Segundo Pavimento
No segundo Pavimento podemos observar alguns móveis utilizados nos anos iniciais do Teatro, incluindo a cadeira original da plateia. Bustos de políticos e artistas também estão em exposição.
O que mais chamou a atenção foram as sapatilhas de dançarinos que se apresentaram no Teatro Amazonas.


2.4         Terceiro Pavimento
No terceiro pavimento tivemos acesso a um camarim de época. Ao todo o Teatro tem 38 camarins e todos dão acesso até o palco. O camarim foi montado como os primeiros camarins do Teatro e contém alguns objetos adquiridos em antiquários.


3.     Considerações Finais

Nesta visita podemos compreender mais sobre a história do Amazonas contada através de representações presentes no Teatro. Percebemos não só a história da construção da cidade de Manaus, em um processo de urbanização mas também a história da sociedade do século XIX que era marcada pela segregação social.



Por: Joise Simas
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