No
dia 13 de fevereiro de 2016, realizamos uma visita técnica ao Teatro Amazonas.
Magnífico e imponente, ele é a mais importante representação da história e
cultura amazonense e para entendê-lo é preciso fazermos uma viagem ao passado
sem sair do presente.
Através
do teatro em si ou de objetos nele contidos, podemos fazer uma fazer essa
viagem até a Belle Époque. Esta foi uma época do apogeu do “ouro branco
amazônico” (período áureo da borracha) onde um novo modo de produção foi
implantado e com ele houveram transformações das relações sociais. Essas
transformações refletiram em traços de diversos costumes e culturas, os quais
refletem no Teatro Amazonas, a materialização dos sonhos.
Esta
viagem ao passado só é possível diante das representações culturais. Segundo a
autora Sandra Pesavento é possível
resgatar a cidade através das representações, entendendo
o fenômeno urbano como um acúmulo de bens culturais (Argan, 1992). Ora,
considerando a cultura como uma rede de significados socialmente estabelecidos
(Geertz, 1981), a cidade é o espaço por excelência para a construção desses
significados, expressos em bens culturais. (PESAVENTO, 1995, p. 281).
O
Teatro Amazonas como um bem cultural carrega consigo um significado importante,
uma parte da história, da cultura e a partir desses significados vamos viajar a
partir de agora desvendando cada espaço deste lugar que é encantador.
1.
Primeiras aproximações
Em 2012 realizei minha primeira visita ao Teatro
Amazonas, foi simplesmente um momento mágico. Ao adentrar neste espaço,
senti-me numa viagem na história. A cada vez que retorno ao Largo de São
Sebastião, onde o Teatro abraça todo esse cenário magnífico, paro para admirar sua
beleza.
Ao chegar à Praça São Sebastião (figura 1), sua presença
é logo notada. De todos os ângulos se podem ter belas fotografias, pode-se
ainda aproveitar como cenário a copa das árvores, ainda assim, o Teatro
Amazonas (figura 2) sempre roubará a cena.
A praça e o Teatro
dançam ao som da mesma canção e constituem um par arquitetônico de singular
harmonia. A praça favorece o entendimento do lugar do Teatro na Cidade e o
Teatro favorece a compreensão do lugar da praça.
O calçamento da
praça em pedras brancas e pretas desenha uma moderna composição de sinuosas,
simbolizando o encontro das águas do Rio Negro com as do Solimões. No centro da
praça, o monumento comemorativo da Abertura dos Portos do Amazonas sugere que o
Teatro é fruto do comércio internacional e que a Abertura dos Portos está
intimamente ligada à vida cultural da cidade (fragmento de um pôster afixado na
parede do Teatro no terceiro pavimento)
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Figura 1 - Praça São Sebastião
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| Figura 2- vista frontal do Teatro Amazonas |
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| Figura 3 - à esquerda, Euterpe – Musa da Música |
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| Figura 4 - Calliope – Deusa da Poesia Épica |
2. 2. A visita técnica
A visita teve início às
14:30h com uma mediadora do teatro. Primeiramente assistimos a uma exposição
feita por ela nos contando a história do Teatro Amazonas. Segundo ela, o Teatro
Amazonas foi construído num período socioeconômico conhecido como “ciclo da
borracha” ou “período áureo da borracha”. Nesta época, recebemos muitas
influências da Europa, principalmente da França.
O projeto do Teatro Amazonas
foi apresentado no ano de 1881 por um político chamado A. J. Fernandes Junior.
Neste projeto, segundo ela, ele queria trazer um pedaço europeu para a
Amazônia. Naquela época já haviam teatros, mas não eram tão refinados,
luxuosos, que pudessem trazem um pouco do requinte europeu para cá, para que
dessa maneira, os chamados barões da borracha pudessem se sentir mais a vontade
aqui. O projeto foi aprovado, e, no ano de 1884, foi lançada a pedra de
fundação e começaram as construções. Mas houveram alguns problemas com as casas
de engenho, com os responsáveis pelas construções e isso prejudicou o andamento
das obras do teatro e então a obra ficou paralisada durante oito anos.
A obra foi retomada no
governo de Eduardo Ribeiro. Ele foi o primeiro governador a ser eleito aqui no
estado do Amazonas e o primeiro negro a ser eleito no país. Seu governo foi
durante os anos de 1892 a 1896. Ele foi o responsável por grandes
transformações na cidade de Manaus. Ele foi o responsável por uma peça muito
importante no teatro Amazonas que é a cúpula.
2.1
Salão de espetáculos
| Figura 5 - Salão de Espetáculos |
Sua beleza é encantadora. Ele tem o formato de uma lira
(instrumento musical), possui vinte e duas colunas (vieram de uma região de Glasgow,
da Escócia) que representam as cordas da lira. Acima das colunas temos vinte e
dois estandartes que fazem homenagem a grandes artistas mundiais, por exemplo:
Shakespeare, Beethoven, Mozart, etc. Acima dos estandartes temos as máscaras
que são conhecidas como carrancas e fazem homenagem ao antigo teatro grego, mas
não se sabe ao certo quais as emoções que elas estão transmitindo (figura 6).
| Figura 6 - coluna do salão de espetáculos |
O grande responsável pelo salão de espetáculos (ver
figura 5) foi Crispim do Amaral, um artista pernambucano que se formou nas
melhores escolas de arquitetura tanto da Itália, quanto na França.
Em
1974 houve uma grande restauração no teatro, e ela é conhecida como “a maior
restauração”. Nesta restauração, foram instalados os ar condicionados, e com
isso, as cadeira originais foram trocadas devido ao ressecamento. Elas eram
deitas de um material chamado Palhinha da Índia.
Neste
mesmo ano, foi instalado o fosso que é o palco da orquestra e tem um
subterrâneo de três metros. Ele desce três metros e sobe três metros.
No
século XIX, havia uma grande divisão social até mesmo no teatro. Na plateia
ficavam as pessoas de menor poder aquisitivo, e quanto mais alto o camarote,
mais poder a pessoa tinha. Uma curiosidade: quanto mais alto, pior a visão,
porém eles não estavam interessados em ver os espetáculos, mas sim em serem vistos,
mostrar suas roupas, suas jóias.
Os
camarotes ao lado do palco são chamados de “bispos”. Na época eles eram
leiloados. Desse lugar se tem a pior visão do espetáculo, mas como já falado
anteriormente, eles queriam ser vistos, e este era o melhor local para isso.
Hoje em dia, é diferente. Os valores de inverteram. A plateia hoje é mais cara
e dependendo do espetáculo, os camarotes chegam a ser gratuitos.
Figura 7 - Visão do teto do salão de espetáculos
|
Nos
quatro cantos dessa torre, temos as alegorias à arte. À esquerda temos a dança,
acima a tragédia grega, à direita as musas com a música e, acima do palco tem a
mistura das três imagens que fazem a mistura perfeita através da ópera na qual
se tem um busto sendo coroado por um anjo e esse busto é Carlos Gomes, um dos
grandes compositores e maestros brasileiros. Ele criou a ópera “O Guarani” que
seria apresentada no teatro no dia da inauguração, mas ele faleceu antes disso
e a ópera apresentada foi “La Gioconda”.
A
capacidade inicial do Teatro Amazonas era de 701 pessoas, mas foi diminuído pra
689 por motivos de som, iluminação, entre outras coisas. Essa quantidade é
dividida em: plateia, frisas (camarote térreo), camarotes de primeiro, segundo
e terceiro pavimento. Cada frisa e camarote tem capacidade para cinco pessoas.
2.2 Acessibilidade
Percorremos
todo o Teatro Amazonas, mas em nenhum momento encontramos rampas de acesso para
deficientes físicos. A única rampa encontra-se para acesso do salão de
espetáculos, porém a rampa não tem a devida inclinação para que um cadeirante
tenha facilidade no acesso. Para os demais pavimentos, o acesso é somente por
via de escadas.
2.2
Primeiro Pavimento
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| Figura 8 - Fantasias de óperas apresentadas no Festival Amazonas de Ópera |
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| Figura 9 - Fantasias de óperas apresentadas no Festival Amazonas de Ópera |
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| Figura 10 - Fantasias de óperas apresentadas no Festival Amazonas de Ópera |
Também podemos ver a maquete
do Teatro (figura 11) feita com 30 mil peças de Lego em 7 tons de cores, medindo
1,15 cm por 1,90 cm de comprimento e 1,10 cm de altura. Ela foi doada pela
empresa Recofarma Indústria do Amazonas Ltda. em março de 2001, sendo exposta
ao público em julho de 2006.
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| Figura 11 - Maquete do Teatro Amazonas feita de lego |
Tivemos acesso aos camarotes e em seguida fomos levados
até o outro lado do mesmo pavimento. Trata-se do Salão Nobre (figura 12).
O piso deste salão foi feito com uma técnica chamada
Marchetaria. Nesta técnica não é necessária a utilização nem de pregos, cola ou
parafusos, pois as peças são encaixadas. São certa de 12 mil peças de madeira
que formam um grande quebra-cabeças de quatro tipos de madeira diferente:
nogueira, mogno, bordô e carvalho. No salão nobre há essas colunas que são de
ferro fundido na sua parte externa contém gesso e ela foi pintada pra
representar o mármore e a sua base é de mármore de carrara.
O responsável pelo salão nobre foi Domenico De Angeles,
ele era um artista italiano, então, por conta disso há algumas influências
italianas no salão. Ele teve como principal inspiração a fauna da Amazônia. Se
visualizarmos ao redor do salão, podemos observar pinturas de animais, plantas,
rios, com exceção da pintura maior que foi uma homenagem a “O Guarani”, ópera
de Carlos Gomes e obra literária de José de Alencar.
Há também no salão nobre dois espelhos franceses que
ficam de frente um pro outro, que dão a impressão de se estar em um corredor
infinito. Era uma forma também de deixar o salão maior. Há ainda busto de poetas, romancistas,
cuspideiras. Um mezanino fica ao redor do salão, esta era outra forma de
segregação social, pois os de maior poder que ficavam no salão não gostavam de
se misturar com outras camadas sociais mais baixas. Era onde ficavam os músicos
e o local era escuro, a fim de que eles fossem apenas ouvidos e não vistos.
| Figura 13 - Pintura no teto do salão nobre |
Faz uma homenagem às belas artes, à dança, à música e ao
teatro. E nessa pintura temos esse anjo,
chamado Glória, com vestido dourado e estrela na cabeça coroando as belas artes
da Amazônia. Glória é feita com a mesma técnica utilizada na pintura de
Monalisa, ou seja, se fitarmos nossos olhos nos olhos de glória e atravessarmos
o salão, vamos ter a impressão como se ela estivesse nos seguindo com o olhar
2.3
Segundo Pavimento
No segundo Pavimento podemos observar alguns móveis
utilizados nos anos iniciais do Teatro, incluindo a cadeira original da
plateia. Bustos de políticos e artistas também estão em exposição.
O que mais chamou a atenção foram as sapatilhas de
dançarinos que se apresentaram no Teatro Amazonas.
2.4
Terceiro Pavimento
No
terceiro pavimento tivemos acesso a um camarim de época. Ao todo o Teatro tem
38 camarins e todos dão acesso até o palco. O camarim foi montado como os
primeiros camarins do Teatro e contém alguns objetos adquiridos em antiquários.
3.
Considerações
Finais
Nesta visita podemos compreender mais sobre a
história do Amazonas contada através de representações presentes no Teatro.
Percebemos não só a história da construção da cidade de Manaus, em um processo
de urbanização mas também a história da sociedade do século XIX que era marcada
pela segregação social.
Por: Joise Simas
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