sábado, 6 de agosto de 2016

O patrimônio histórico como construção de memória

Como o objetivo principal do blog é compartilhar informações no que diz respeito ao Patrimônio Cultural, trago aqui uma pequena reflexão a respeito da construção da memória a partir do patrimônio. Esse artigo ainda está em fase de construção, sendo assim, as contribuições com criticas, recomendações de leituras teóricas serão todas bens vindas.


O patrimônio histórico como construção de memória


Paulo Igo Gomes dos Santos[1]


Nos últimos anos, muito se tem falado sobre a questão do patrimônio histórico cultural, em grande medida, graças aos avanços teóricos – metodológicos das ciências sócias. Segundo Carlos A. Lemos (2004), o Serviço do patrimônio Histórico e artístico Nacional (SPHAN), fora criado no ano de 1937, no Governo de Getulio Vargas, chefiado, pelo então ministro da Educação, Gustavo Capanema.  Em principio, o SPHAN, que fora criado a partir de um projeto elaborado por Mário de Andrade, mas que ao longo do percurso sofrera algumas mudanças no projeto original; tinha como principal missão proteger os bens de interesse públicos seja eles artísticos, bens moveis ou imóveis, arqueológicos, etnográfico ou bibliográfico.
Entretanto, para se entender melhor as questões que cercam as discussões sobre o Patrimônio histórico cultural, principalmente no Brasil, acredita-se que é necessário percorrer o caminho histórico em relação ao conceito de patrimônio.
Segundo Pedro Funari e Sandra Pelegrine(2006), a trajetória do patrimônio no contexto mundial tem origem com os antigos romanos, onde a palavra Patrimônio é uma palavra de origem latina, Patrimonium, que se refere a tudo que pertencia ao pai ou pater famílias. Desse modo, ainda segundo Funari e Pelegrine (2006), o conceito de patrimônio surge no âmbito privado do direito a propriedade, onde “estava intimamente ligado aos pontos de vistas e interesses aristocráticos”, assim o “patrimônio era um valor aristocrático e privado, referente à transmissão de bens no seio da elite patriarcal romano”, desse modo, para a sociedade romana, patrimônio compreendia tudo que estivesse sobre domínio do pater famílias, sendo esses, a própria família, o que inclui mulher e filhos, escravos, os bens móveis e imóveis e ate mesmo os animais.
Com a difusão e expansão do cristianismo pela Europa entre os séculos VI ao XV, o patrimônio expande-se e ganha o conceito simbólico e coletivo do circulo religioso. Para Funari e Pelegrini (2006) os sentimentos religiosos, principalmente de adoração aos santos e relíquias, deram as pessoas comuns um sentido próprio de patrimônio, no que se referem principalmente os rituais coletivos, as missas e cultos, a valorização do lugar, os espaços santos e sagrados.
Com o surgimento das nações e posteriormente com o surgimento do sentimento de nacionalismo, o conceito de patrimônio ganha novos ambitos de ‘atuação. Como exemplo da transformação - que Funari e Pelegrini, denominam de radical - do conceito de patrimônio se tem a França.
Segundo os autores a Revolução Francesa viria “destruir” os fundamentos do antigo regime, ou seja, a estrutura de Estado voltada para o rei perderia qualquer razão de existe e ser. Com o advento da república, criava-se, assim, o conceito de igualdade e cidadania entre os homens. Entretanto, ainda era necessário criar laços entre os cidadãos e que os fizessem compartilhar valores e costumes, além de uma origem e terras em comum.
 Mesmo após a criação do Estado Nacional, ainda se fazia necessário à criação de laços entre seus cidadãos. Na França, o caminho encontrado para a criação desses laços, fora o investimento em políticas educacionais que introduzissem, já entre as crianças e jovens, a ideia de pertencimento a uma nação.
Assim, com o surgimento das nações e a necessidade de criação de laços entre sua população, tais como costumes, língua e uma origem em comum, o que fora alcançado a partir dos investimentos educacionais, ainda se fazia necessário à preservação daquilo que lhes trazia identidade, portanto, ainda em plena Revolução Francesa, “criou-se uma comissão encarregada da preservação dos monumentos que representavam a incipiente nação francesa e sua cultura”. Muito embora a legislação de proteção do patrimônio Francês só viria a surgir em 1887 e sendo complementada apenas em 1906, não se pode negar que o conceito de preservação do patrimônio como conhecemos hoje tenha dado seus primeiros passos em pleno século XVIII.
No Brasil, a questão de preservação do Patrimônio, deu-se apenas em 1937, com Gustavo Capanema, não muito diferente do modelo francês, que segundo Funari e Penegrini (2009), voltava-se para a “limitação dos direitos de propriedade privada, em beneficio do patrimônio nacional, de acordo, com a tradição do direito romano”, desse modo, segundo a tradição dos países latinos, que seguiram as concepções do direito romano, a propriedade privada é sujeita a restrições, derivada dos direitos dos outros ou da coletividade em geral, em outras palavras, toda a propriedade tem suas limitações de uso.
Segundo Carlos Lemos (2006), para manutenção de nossa identidade cultural é necessário preservar, registrar e guardar vestígios, mesmo que simplórios, dos nossos costumes e usos, principalmente os populares.
Sendo assim, para Lemos:
“Preservar não é só guardar uma coisa, um objeto, uma construção, um miolo histórico de uma grande cidade velha. Preservar também é gravar depoimentos, sons, musicas populares e eruditas. Preservar é manter vivos, mesmo que alterados,usos e costumes populares, é fazer também levantamentos, levantamentos de qualquer natureza, de sítios variados, de cidades, de bairros, de quarteirões significativos dentro do contexto urbano.”

De todo, é extremamente recente, a busca pela preservação da memória popular no Brasil. Desde a sua criação, em 1937, o Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, preservou “as igrejas barrocas, os fortes militares, as casas-grandes e os sobrados colônias”, esquecendo, no entanto, “as senzalas, os quilombos, as vilas operarias e os cortiços.”
Para Lemos, essa destruição desnecessária de elementos do grande patrimônio, seja ele erudito ou popular, se dá segundo interesses de uma sociedade que em seu âmago já está dividida em classes, o que leva a sugerir, uma fragmentação na busca de preservação do patrimônio, onde segundo ele, “cada classe social, cada grupo econômico, cada meio, cada preocupação está a selecionar elementos culturais de seu interesse para que sejam guardados como testemunhos de sua preocupação.”.
A partir desses interesses na preservação de determinados patrimônios, essa política de preservação, a de um passado sem conflitos sociais, de memórias, de lutas por direitos, principalmente a vida, mostra a concepção predominante de uma elite que exclui as diferenças e a pluralidade etno-cultural de nossa formação histórica e social.
O patrimônio dos carentes, aquele que muitas vezes é esquecido, como afirma Marcos da Silva é caracterizado por “precariedade, improviso, reaproveitamento e adaptação de espaços e matérias, com a aparência maior de degradação arquitetônica”, ou seja, tudo aquilo que raramente é preservado.
Partindo desse conceito de Marcos da Silva, o patrimônio, assim como a memória, são produtos de escolhas voltadas para preservar um passado idealizado, sendo esse utilizado como base para uma construção de memória que preservará determinados personagens e excluirá automaticamente outros.  Dessa forma, o patrimônio Cultural e a memória coletiva são em realidade escolhas políticas e ideológicas.
 Entender o patrimônio cultural como construção de memória é da luz ao estudo da identidade de uma sociedade. Para Le Goff (2007), a memória acaba por estabelecer um “vinculo” entre as gerações humanas e o “tempo histórico que as acompanha”.  Assim, ao se preservar um patrimônio, seja ele material, imaterial, arqueológico, ou costumes e saberes de um povo, é preservar os vínculos criados entre as gerações humanas e o período histórico ao qual pertencem. 
Partindo dos conceitos, até aqui apresentados, o patrimônio cultural, tem como função, não somente a preservação de determinados monumentos, costumes e valores de uma sociedade, mas tem a função de construção e preservação de memória de uma sociedade em si.
Dessa forma, em um âmbito mais regional, temos a Igreja da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, localizada no centro histórico de Manaus, onde ao longo dos séculos passou por diversas mudanças estruturais em sua arquitetura, até chegar ao qual se conhece hoje, um estilo neoclássico, onde sua cobertura, é a única que foge desse estilo e se apresenta em um estilo barroco.
Segundo Otoni Mesquita (2006) “a Igreja de Nossa Senhora da Conceição foi a primeira grande obra arquitetônica construída em Manaus e a mais importante do período provincial”. Entretanto, antes de se apresentar como conhecemos hoje, a igreja passou por diversas mudanças onde, segundo a Ana Paulo Rabelo, em sua dissertação de mestrado “Do templo de taipa ao templo de pedra: a construção da Igreja da Matriz (1858-1878)”, a Igreja da Matriz de Nossa Senhora da Conceição em suas primeiras construções apresentava características bastante rústicas, onde a relação com a floresta era muito presente em seus aspectos arquitetônicos.
Em suas primeiras construções, o que Ana Paulo Rabelo divide em três momentos, o templo de taipa, o tempo de madeira de lei e o templo de cinzas, via-se na igreja uma construção de extrema importância, tanto no aspecto social, pois era a partir da igreja que se catequizava os índios, no qual se fazia necessário o espaço dos cultos e adorações, assim como nos aspectos políticos, pois anteriormente a igreja representava o local de encontros e votações, no aspecto urbanístico, pois era a partir da igreja que se “iniciava” os traçados urbanos e principalmente econômicos, pois sendo a principal construção do período provincial no Amazonas, a igreja acompanhava a partir de sua estrutura as “tendências estruturais” daquele período.
Entretanto a igreja de aspectos rústicos, de barro e madeira, após seu incêndio em 2 de julho de 1850, fica esquecida no tempo, dando lugar na memória a igreja que Ana Paula Rabelo chama de o Templo de Pedra, no qual a  obra percorreria longos vintes anos para ser finalizada.
 A igreja da Matriz caracterizada como patrimônio em aspecto local de construção da memória de uma população, é um grande exemplo de uma memória construída a partir de interesses de claro esquecimento de uma época, onde a população amazonense ainda se identificava com os aspectos rústicos da natureza, no qual a cidade era formada por barro, palha e madeira.
A partir do advento da economia da borracha, a cidade antes de palha e barro, com poucas casas de estilo europeu, torna-se, ao longo de vinte anos, uma cidade, segundo Mascarenhas Dias, “moderna e elegante”.
Em um olhar voltado para o patrimônio, onde, a sua função principal é preservar os aspectos históricos de interesses públicos, para passar uma memória para as gerações futuras, pouco se vê em relação ao período provincial de Manaus, onde, até mesmo na historiografia local, em aspectos de pesquisas urbanas, pouco se produz sobre o determinado período. Desse modo, tanto em relação à preservação e construção de memória de um determinado período da longa historia amazonense, ainda se insiste bastante em “desbravar” o período conhecido como Belle Epoque.   
A igreja da Matriz do templo de taipa e madeira, a cidade de Manaus do tempo de barro e palha, pouco se é preservado, ou meramente mencionado, de modo geral, a construção da memória a partir dos monumentos percorrerem caminhos claramente de cunhos políticos, pois, segundo Carlos Lemos, “A classe dominante, quase sempre, tem seus prestigio herdado, e por isso, gosta de preservar e recuperar os testemunhos matérias de seus antepassados numa demonstração de afirmação política.”, dessa forma, para eles, a preservação de bens culturais constitui a obrigação de manter viva a memória de um passado glorioso.












Referencias



BENTE, Dorinethe. Manaus: outras faces da historia. 1910-1940.Manaus: Reggo Edições, 2012.


COSTA, Deusa. Quando viver Ameaça a ordem urbana: Trabalhadores de Manaus(1890/1915), Manaus: Editora Valer / FAPEAM, 2014.  

DIAS, Edinea Mascarenhas. A ilusão do Fasto: Manaus 1890 – 1920. 2° Ed. Manaus. Editora: Valer, 2007.

FUNARI, Pedro Paulo de Abreu e PELEGRINI, Sandra de Cassia Araujo.  Patrimônio Histórico Cultural, Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Ed., 2006.

LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: Unicamp, 1990.

LEMOS, Carlos A. C. O que é Patrimônio Histórico. São Paulo: Brasiliense, 2004 – (coleção primeiros passoos; 51)

PINHEIRO UGARTE, Maria Luiza. A cidade sobre os ombros: Trabalho e conflito no porto de Manaus (1899-1925),  ADUA 2° Ed. Edições Governo do Estado.





[1] Formado em Historia pela Universidade Federal do Amazonas UFAM, cursando o programa de especialização em Patrimônio Histórico cultural nos centros urbanos, pela Faculdade Metropolitana de Manaus – Fametro 

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Primeira visita técnica da turma de PCCU ao Teatro Amazonas. Por Joise Simas

No dia 13 de fevereiro de 2016, realizamos uma visita técnica ao Teatro Amazonas. Magnífico e imponente, ele é a mais importante representação da história e cultura amazonense e para entendê-lo é preciso fazermos uma viagem ao passado sem sair do presente.
Através do teatro em si ou de objetos nele contidos, podemos fazer uma fazer essa viagem até a Belle Époque. Esta foi uma época do apogeu do “ouro branco amazônico” (período áureo da borracha) onde um novo modo de produção foi implantado e com ele houveram transformações das relações sociais. Essas transformações refletiram em traços de diversos costumes e culturas, os quais refletem no Teatro Amazonas, a materialização dos sonhos.
Esta viagem ao passado só é possível diante das representações culturais. Segundo a autora Sandra Pesavento é possível
resgatar a cidade através das representações, entendendo o fenômeno urbano como um acúmulo de bens culturais (Argan, 1992). Ora, considerando a cultura como uma rede de significados socialmente estabelecidos (Geertz, 1981), a cidade é o espaço por excelência para a construção desses significados, expressos em bens culturais. (PESAVENTO, 1995, p. 281).

O Teatro Amazonas como um bem cultural carrega consigo um significado importante, uma parte da história, da cultura e a partir desses significados vamos viajar a partir de agora desvendando cada espaço deste lugar que é encantador.

1.           Primeiras aproximações
Em 2012 realizei minha primeira visita ao Teatro Amazonas, foi simplesmente um momento mágico. Ao adentrar neste espaço, senti-me numa viagem na história. A cada vez que retorno ao Largo de São Sebastião, onde o Teatro abraça todo esse cenário magnífico, paro para admirar sua beleza.
Ao chegar à Praça São Sebastião (figura 1), sua presença é logo notada. De todos os ângulos se podem ter belas fotografias, pode-se ainda aproveitar como cenário a copa das árvores, ainda assim, o Teatro Amazonas (figura 2) sempre roubará a cena.
A praça e o Teatro dançam ao som da mesma canção e constituem um par arquitetônico de singular harmonia. A praça favorece o entendimento do lugar do Teatro na Cidade e o Teatro favorece a compreensão do lugar da praça.
O calçamento da praça em pedras brancas e pretas desenha uma moderna composição de sinuosas, simbolizando o encontro das águas do Rio Negro com as do Solimões. No centro da praça, o monumento comemorativo da Abertura dos Portos do Amazonas sugere que o Teatro é fruto do comércio internacional e que a Abertura dos Portos está intimamente ligada à vida cultural da cidade (fragmento de um pôster afixado na parede do Teatro no terceiro pavimento)


Figura 1 - Praça São Sebastião

Figura 2- vista frontal do Teatro Amazonas

  












Agora, em 2016, retorno com olhar de pesquisadora. Subo as escadas de acesso. Dezesseis degraus e ele vai crescendo à minha fronte. Deparo-me com um jardim e duas estátuas, uma de cada lado. Agora a curiosidade me leva a ver o que elas representam. São: Euterpe (figura 3) e Calliope (figura 4).



Figura 3 - à esquerda, Euterpe – Musa da Música
Figura 4 - Calliope – Deusa da Poesia Épica


2.           2. A visita técnica
A visita teve início às 14:30h com uma mediadora do teatro. Primeiramente assistimos a uma exposição feita por ela nos contando a história do Teatro Amazonas. Segundo ela, o Teatro Amazonas foi construído num período socioeconômico conhecido como “ciclo da borracha” ou “período áureo da borracha”. Nesta época, recebemos muitas influências da Europa, principalmente da França.
O projeto do Teatro Amazonas foi apresentado no ano de 1881 por um político chamado A. J. Fernandes Junior. Neste projeto, segundo ela, ele queria trazer um pedaço europeu para a Amazônia. Naquela época já haviam teatros, mas não eram tão refinados, luxuosos, que pudessem trazem um pouco do requinte europeu para cá, para que dessa maneira, os chamados barões da borracha pudessem se sentir mais a vontade aqui. O projeto foi aprovado, e, no ano de 1884, foi lançada a pedra de fundação e começaram as construções. Mas houveram alguns problemas com as casas de engenho, com os responsáveis pelas construções e isso prejudicou o andamento das obras do teatro e então a obra ficou paralisada durante oito anos.
A obra foi retomada no governo de Eduardo Ribeiro. Ele foi o primeiro governador a ser eleito aqui no estado do Amazonas e o primeiro negro a ser eleito no país. Seu governo foi durante os anos de 1892 a 1896. Ele foi o responsável por grandes transformações na cidade de Manaus. Ele foi o responsável por uma peça muito importante no teatro Amazonas que é a cúpula.

2.1         Salão de espetáculos


Iniciamos nossa visita ao salão de espetáculos (figura 5).
Figura 5 - Salão de Espetáculos
Sua beleza é encantadora. Ele tem o formato de uma lira (instrumento musical), possui vinte e duas colunas (vieram de uma região de Glasgow, da Escócia) que representam as cordas da lira. Acima das colunas temos vinte e dois estandartes que fazem homenagem a grandes artistas mundiais, por exemplo: Shakespeare, Beethoven, Mozart, etc. Acima dos estandartes temos as máscaras que são conhecidas como carrancas e fazem homenagem ao antigo teatro grego, mas não se sabe ao certo quais as emoções que elas estão transmitindo (figura 6).

 Figura 6 - coluna do salão de espetáculos

O grande responsável pelo salão de espetáculos (ver figura 5) foi Crispim do Amaral, um artista pernambucano que se formou nas melhores escolas de arquitetura tanto da Itália, quanto na França.
Em 1974 houve uma grande restauração no teatro, e ela é conhecida como “a maior restauração”. Nesta restauração, foram instalados os ar condicionados, e com isso, as cadeira originais foram trocadas devido ao ressecamento. Elas eram deitas de um material chamado Palhinha da Índia.
Neste mesmo ano, foi instalado o fosso que é o palco da orquestra e tem um subterrâneo de três metros. Ele desce três metros e sobe três metros.
No século XIX, havia uma grande divisão social até mesmo no teatro. Na plateia ficavam as pessoas de menor poder aquisitivo, e quanto mais alto o camarote, mais poder a pessoa tinha. Uma curiosidade: quanto mais alto, pior a visão, porém eles não estavam interessados em ver os espetáculos, mas sim em serem vistos, mostrar suas roupas, suas jóias.
Os camarotes ao lado do palco são chamados de “bispos”. Na época eles eram leiloados. Desse lugar se tem a pior visão do espetáculo, mas como já falado anteriormente, eles queriam ser vistos, e este era o melhor local para isso. Hoje em dia, é diferente. Os valores de inverteram. A plateia hoje é mais cara e dependendo do espetáculo, os camarotes chegam a ser gratuitos.
Ao olharmos para o teto (ver figura 7) é como se estivéssemos de baixo da torre Eiffel de Paris.
Figura 7 - Visão do teto do salão de espetáculos

Nos quatro cantos dessa torre, temos as alegorias à arte. À esquerda temos a dança, acima a tragédia grega, à direita as musas com a música e, acima do palco tem a mistura das três imagens que fazem a mistura perfeita através da ópera na qual se tem um busto sendo coroado por um anjo e esse busto é Carlos Gomes, um dos grandes compositores e maestros brasileiros. Ele criou a ópera “O Guarani” que seria apresentada no teatro no dia da inauguração, mas ele faleceu antes disso e a ópera apresentada foi “La Gioconda”.
A capacidade inicial do Teatro Amazonas era de 701 pessoas, mas foi diminuído pra 689 por motivos de som, iluminação, entre outras coisas. Essa quantidade é dividida em: plateia, frisas (camarote térreo), camarotes de primeiro, segundo e terceiro pavimento. Cada frisa e camarote tem capacidade para cinco pessoas.

2.2      Acessibilidade
Percorremos todo o Teatro Amazonas, mas em nenhum momento encontramos rampas de acesso para deficientes físicos. A única rampa encontra-se para acesso do salão de espetáculos, porém a rampa não tem a devida inclinação para que um cadeirante tenha facilidade no acesso. Para os demais pavimentos, o acesso é somente por via de escadas.

2.2         Primeiro Pavimento









No primeiro pavimento conhecemos os camarotes e podemos ver alguns manequins usando fantasias das óperas já apresentadas no Teatro (ver figura 8, 9 e 10). Estas fantasias foram utilizadas na ópera La Gioconda no X Festival Amazonas de Ópera e na ópera Manon Lescaut no XVIII Festival Amazonas de Ópera.
Figura 8 - Fantasias de óperas apresentadas no Festival Amazonas de Ópera
Figura 9 - Fantasias de óperas apresentadas no Festival Amazonas de Ópera
Figura 10 - Fantasias de óperas apresentadas no Festival Amazonas de Ópera
Também podemos ver a maquete do Teatro (figura 11) feita com 30 mil peças de Lego em 7 tons de cores, medindo 1,15 cm por 1,90 cm de comprimento e 1,10 cm de altura. Ela foi doada pela empresa Recofarma Indústria do Amazonas Ltda. em março de 2001, sendo exposta ao público em julho de 2006.

Figura 11 - Maquete do Teatro Amazonas feita de lego

  
Tivemos acesso aos camarotes e em seguida fomos levados até o outro lado do mesmo pavimento. Trata-se do Salão Nobre (figura 12).

 
Figura 12 - Salão Nobre

 O piso deste salão foi feito com uma técnica chamada Marchetaria. Nesta técnica não é necessária a utilização nem de pregos, cola ou parafusos, pois as peças são encaixadas. São certa de 12 mil peças de madeira que formam um grande quebra-cabeças de quatro tipos de madeira diferente: nogueira, mogno, bordô e carvalho. No salão nobre há essas colunas que são de ferro fundido na sua parte externa contém gesso e ela foi pintada pra representar o mármore e a sua base é de mármore de carrara.
O responsável pelo salão nobre foi Domenico De Angeles, ele era um artista italiano, então, por conta disso há algumas influências italianas no salão. Ele teve como principal inspiração a fauna da Amazônia. Se visualizarmos ao redor do salão, podemos observar pinturas de animais, plantas, rios, com exceção da pintura maior que foi uma homenagem a “O Guarani”, ópera de Carlos Gomes e obra literária de José de Alencar.
Há também no salão nobre dois espelhos franceses que ficam de frente um pro outro, que dão a impressão de se estar em um corredor infinito. Era uma forma também de deixar o salão maior.  Há ainda busto de poetas, romancistas, cuspideiras. Um mezanino fica ao redor do salão, esta era outra forma de segregação social, pois os de maior poder que ficavam no salão não gostavam de se misturar com outras camadas sociais mais baixas. Era onde ficavam os músicos e o local era escuro, a fim de que eles fossem apenas ouvidos e não vistos.
No teto há uma bela pintura chamada “A Glorificação das Belas Artes (figura 13).
Figura 13 - Pintura no teto do salão nobre
 Faz uma homenagem às belas artes, à dança, à música e ao teatro.  E nessa pintura temos esse anjo, chamado Glória, com vestido dourado e estrela na cabeça coroando as belas artes da Amazônia. Glória é feita com a mesma técnica utilizada na pintura de Monalisa, ou seja, se fitarmos nossos olhos nos olhos de glória e atravessarmos o salão, vamos ter a impressão como se ela estivesse nos seguindo com o olhar

2.3         Segundo Pavimento
No segundo Pavimento podemos observar alguns móveis utilizados nos anos iniciais do Teatro, incluindo a cadeira original da plateia. Bustos de políticos e artistas também estão em exposição.
O que mais chamou a atenção foram as sapatilhas de dançarinos que se apresentaram no Teatro Amazonas.


2.4         Terceiro Pavimento
No terceiro pavimento tivemos acesso a um camarim de época. Ao todo o Teatro tem 38 camarins e todos dão acesso até o palco. O camarim foi montado como os primeiros camarins do Teatro e contém alguns objetos adquiridos em antiquários.


3.     Considerações Finais

Nesta visita podemos compreender mais sobre a história do Amazonas contada através de representações presentes no Teatro. Percebemos não só a história da construção da cidade de Manaus, em um processo de urbanização mas também a história da sociedade do século XIX que era marcada pela segregação social.



Por: Joise Simas
Todos os direitos reservados

PATRIMONIO CULTURAL EM CENTROS URBANOS

Proposta do Curso de Patrimônio Cultural em Centros Urbanos
Objetivo do Curso
Dar uma formação qualificada aos participantes, possibilitando um tratamento crítico do tema e uma avaliação mais criteriosa dos projetos que envolvem o tema, sejam eles oriundos de instituições e órgãos que especificamente têm como atribuições o encaminhamento de respostas que envolvem todos os aspectos do patrimônio cultural no cotidiano do seu trabalho. O curso tem um caráter abrangente e, neste sentido, possibilitará um domínio mais amplo do assunto, além de possibilitar uma visão mais crítica das ações que envolvem o patrimônio cultural, este também entendido no seu sentido mais abrangente do que o tradicionalmente adotado.
Fundamentação
O curso de Pós-Graduação “lato sensu”, está estruturado de acordo com a Resolução nº. 1, de 8 de junho de 2007, do MEC/CNE/CES.
Caracterização do Curso
Carga Horária: 360 horas
Duração: 18 meses
Tipo: Especialização
Estrutura do Curso: Modular
Público Alvo
Gestores de patrimônio e interessados em geral portadores de diploma de curso superior em turismo, arquitetura, história, sociologia, geografia e carreiras afins.
Estrutura do Curso
O curso foi estruturado de modo a atender a Resolução MEC/CNE/CES nº. 1 de 08/06/2007 e funcionará de forma modular, que permite aos alunos e professores dedicação total à área do conhecimento em pauta e evitando assim, fragmentações e diluições em tempos esparsos.