sábado, 6 de agosto de 2016

O patrimônio histórico como construção de memória

Como o objetivo principal do blog é compartilhar informações no que diz respeito ao Patrimônio Cultural, trago aqui uma pequena reflexão a respeito da construção da memória a partir do patrimônio. Esse artigo ainda está em fase de construção, sendo assim, as contribuições com criticas, recomendações de leituras teóricas serão todas bens vindas.


O patrimônio histórico como construção de memória


Paulo Igo Gomes dos Santos[1]


Nos últimos anos, muito se tem falado sobre a questão do patrimônio histórico cultural, em grande medida, graças aos avanços teóricos – metodológicos das ciências sócias. Segundo Carlos A. Lemos (2004), o Serviço do patrimônio Histórico e artístico Nacional (SPHAN), fora criado no ano de 1937, no Governo de Getulio Vargas, chefiado, pelo então ministro da Educação, Gustavo Capanema.  Em principio, o SPHAN, que fora criado a partir de um projeto elaborado por Mário de Andrade, mas que ao longo do percurso sofrera algumas mudanças no projeto original; tinha como principal missão proteger os bens de interesse públicos seja eles artísticos, bens moveis ou imóveis, arqueológicos, etnográfico ou bibliográfico.
Entretanto, para se entender melhor as questões que cercam as discussões sobre o Patrimônio histórico cultural, principalmente no Brasil, acredita-se que é necessário percorrer o caminho histórico em relação ao conceito de patrimônio.
Segundo Pedro Funari e Sandra Pelegrine(2006), a trajetória do patrimônio no contexto mundial tem origem com os antigos romanos, onde a palavra Patrimônio é uma palavra de origem latina, Patrimonium, que se refere a tudo que pertencia ao pai ou pater famílias. Desse modo, ainda segundo Funari e Pelegrine (2006), o conceito de patrimônio surge no âmbito privado do direito a propriedade, onde “estava intimamente ligado aos pontos de vistas e interesses aristocráticos”, assim o “patrimônio era um valor aristocrático e privado, referente à transmissão de bens no seio da elite patriarcal romano”, desse modo, para a sociedade romana, patrimônio compreendia tudo que estivesse sobre domínio do pater famílias, sendo esses, a própria família, o que inclui mulher e filhos, escravos, os bens móveis e imóveis e ate mesmo os animais.
Com a difusão e expansão do cristianismo pela Europa entre os séculos VI ao XV, o patrimônio expande-se e ganha o conceito simbólico e coletivo do circulo religioso. Para Funari e Pelegrini (2006) os sentimentos religiosos, principalmente de adoração aos santos e relíquias, deram as pessoas comuns um sentido próprio de patrimônio, no que se referem principalmente os rituais coletivos, as missas e cultos, a valorização do lugar, os espaços santos e sagrados.
Com o surgimento das nações e posteriormente com o surgimento do sentimento de nacionalismo, o conceito de patrimônio ganha novos ambitos de ‘atuação. Como exemplo da transformação - que Funari e Pelegrini, denominam de radical - do conceito de patrimônio se tem a França.
Segundo os autores a Revolução Francesa viria “destruir” os fundamentos do antigo regime, ou seja, a estrutura de Estado voltada para o rei perderia qualquer razão de existe e ser. Com o advento da república, criava-se, assim, o conceito de igualdade e cidadania entre os homens. Entretanto, ainda era necessário criar laços entre os cidadãos e que os fizessem compartilhar valores e costumes, além de uma origem e terras em comum.
 Mesmo após a criação do Estado Nacional, ainda se fazia necessário à criação de laços entre seus cidadãos. Na França, o caminho encontrado para a criação desses laços, fora o investimento em políticas educacionais que introduzissem, já entre as crianças e jovens, a ideia de pertencimento a uma nação.
Assim, com o surgimento das nações e a necessidade de criação de laços entre sua população, tais como costumes, língua e uma origem em comum, o que fora alcançado a partir dos investimentos educacionais, ainda se fazia necessário à preservação daquilo que lhes trazia identidade, portanto, ainda em plena Revolução Francesa, “criou-se uma comissão encarregada da preservação dos monumentos que representavam a incipiente nação francesa e sua cultura”. Muito embora a legislação de proteção do patrimônio Francês só viria a surgir em 1887 e sendo complementada apenas em 1906, não se pode negar que o conceito de preservação do patrimônio como conhecemos hoje tenha dado seus primeiros passos em pleno século XVIII.
No Brasil, a questão de preservação do Patrimônio, deu-se apenas em 1937, com Gustavo Capanema, não muito diferente do modelo francês, que segundo Funari e Penegrini (2009), voltava-se para a “limitação dos direitos de propriedade privada, em beneficio do patrimônio nacional, de acordo, com a tradição do direito romano”, desse modo, segundo a tradição dos países latinos, que seguiram as concepções do direito romano, a propriedade privada é sujeita a restrições, derivada dos direitos dos outros ou da coletividade em geral, em outras palavras, toda a propriedade tem suas limitações de uso.
Segundo Carlos Lemos (2006), para manutenção de nossa identidade cultural é necessário preservar, registrar e guardar vestígios, mesmo que simplórios, dos nossos costumes e usos, principalmente os populares.
Sendo assim, para Lemos:
“Preservar não é só guardar uma coisa, um objeto, uma construção, um miolo histórico de uma grande cidade velha. Preservar também é gravar depoimentos, sons, musicas populares e eruditas. Preservar é manter vivos, mesmo que alterados,usos e costumes populares, é fazer também levantamentos, levantamentos de qualquer natureza, de sítios variados, de cidades, de bairros, de quarteirões significativos dentro do contexto urbano.”

De todo, é extremamente recente, a busca pela preservação da memória popular no Brasil. Desde a sua criação, em 1937, o Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, preservou “as igrejas barrocas, os fortes militares, as casas-grandes e os sobrados colônias”, esquecendo, no entanto, “as senzalas, os quilombos, as vilas operarias e os cortiços.”
Para Lemos, essa destruição desnecessária de elementos do grande patrimônio, seja ele erudito ou popular, se dá segundo interesses de uma sociedade que em seu âmago já está dividida em classes, o que leva a sugerir, uma fragmentação na busca de preservação do patrimônio, onde segundo ele, “cada classe social, cada grupo econômico, cada meio, cada preocupação está a selecionar elementos culturais de seu interesse para que sejam guardados como testemunhos de sua preocupação.”.
A partir desses interesses na preservação de determinados patrimônios, essa política de preservação, a de um passado sem conflitos sociais, de memórias, de lutas por direitos, principalmente a vida, mostra a concepção predominante de uma elite que exclui as diferenças e a pluralidade etno-cultural de nossa formação histórica e social.
O patrimônio dos carentes, aquele que muitas vezes é esquecido, como afirma Marcos da Silva é caracterizado por “precariedade, improviso, reaproveitamento e adaptação de espaços e matérias, com a aparência maior de degradação arquitetônica”, ou seja, tudo aquilo que raramente é preservado.
Partindo desse conceito de Marcos da Silva, o patrimônio, assim como a memória, são produtos de escolhas voltadas para preservar um passado idealizado, sendo esse utilizado como base para uma construção de memória que preservará determinados personagens e excluirá automaticamente outros.  Dessa forma, o patrimônio Cultural e a memória coletiva são em realidade escolhas políticas e ideológicas.
 Entender o patrimônio cultural como construção de memória é da luz ao estudo da identidade de uma sociedade. Para Le Goff (2007), a memória acaba por estabelecer um “vinculo” entre as gerações humanas e o “tempo histórico que as acompanha”.  Assim, ao se preservar um patrimônio, seja ele material, imaterial, arqueológico, ou costumes e saberes de um povo, é preservar os vínculos criados entre as gerações humanas e o período histórico ao qual pertencem. 
Partindo dos conceitos, até aqui apresentados, o patrimônio cultural, tem como função, não somente a preservação de determinados monumentos, costumes e valores de uma sociedade, mas tem a função de construção e preservação de memória de uma sociedade em si.
Dessa forma, em um âmbito mais regional, temos a Igreja da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, localizada no centro histórico de Manaus, onde ao longo dos séculos passou por diversas mudanças estruturais em sua arquitetura, até chegar ao qual se conhece hoje, um estilo neoclássico, onde sua cobertura, é a única que foge desse estilo e se apresenta em um estilo barroco.
Segundo Otoni Mesquita (2006) “a Igreja de Nossa Senhora da Conceição foi a primeira grande obra arquitetônica construída em Manaus e a mais importante do período provincial”. Entretanto, antes de se apresentar como conhecemos hoje, a igreja passou por diversas mudanças onde, segundo a Ana Paulo Rabelo, em sua dissertação de mestrado “Do templo de taipa ao templo de pedra: a construção da Igreja da Matriz (1858-1878)”, a Igreja da Matriz de Nossa Senhora da Conceição em suas primeiras construções apresentava características bastante rústicas, onde a relação com a floresta era muito presente em seus aspectos arquitetônicos.
Em suas primeiras construções, o que Ana Paulo Rabelo divide em três momentos, o templo de taipa, o tempo de madeira de lei e o templo de cinzas, via-se na igreja uma construção de extrema importância, tanto no aspecto social, pois era a partir da igreja que se catequizava os índios, no qual se fazia necessário o espaço dos cultos e adorações, assim como nos aspectos políticos, pois anteriormente a igreja representava o local de encontros e votações, no aspecto urbanístico, pois era a partir da igreja que se “iniciava” os traçados urbanos e principalmente econômicos, pois sendo a principal construção do período provincial no Amazonas, a igreja acompanhava a partir de sua estrutura as “tendências estruturais” daquele período.
Entretanto a igreja de aspectos rústicos, de barro e madeira, após seu incêndio em 2 de julho de 1850, fica esquecida no tempo, dando lugar na memória a igreja que Ana Paula Rabelo chama de o Templo de Pedra, no qual a  obra percorreria longos vintes anos para ser finalizada.
 A igreja da Matriz caracterizada como patrimônio em aspecto local de construção da memória de uma população, é um grande exemplo de uma memória construída a partir de interesses de claro esquecimento de uma época, onde a população amazonense ainda se identificava com os aspectos rústicos da natureza, no qual a cidade era formada por barro, palha e madeira.
A partir do advento da economia da borracha, a cidade antes de palha e barro, com poucas casas de estilo europeu, torna-se, ao longo de vinte anos, uma cidade, segundo Mascarenhas Dias, “moderna e elegante”.
Em um olhar voltado para o patrimônio, onde, a sua função principal é preservar os aspectos históricos de interesses públicos, para passar uma memória para as gerações futuras, pouco se vê em relação ao período provincial de Manaus, onde, até mesmo na historiografia local, em aspectos de pesquisas urbanas, pouco se produz sobre o determinado período. Desse modo, tanto em relação à preservação e construção de memória de um determinado período da longa historia amazonense, ainda se insiste bastante em “desbravar” o período conhecido como Belle Epoque.   
A igreja da Matriz do templo de taipa e madeira, a cidade de Manaus do tempo de barro e palha, pouco se é preservado, ou meramente mencionado, de modo geral, a construção da memória a partir dos monumentos percorrerem caminhos claramente de cunhos políticos, pois, segundo Carlos Lemos, “A classe dominante, quase sempre, tem seus prestigio herdado, e por isso, gosta de preservar e recuperar os testemunhos matérias de seus antepassados numa demonstração de afirmação política.”, dessa forma, para eles, a preservação de bens culturais constitui a obrigação de manter viva a memória de um passado glorioso.












Referencias



BENTE, Dorinethe. Manaus: outras faces da historia. 1910-1940.Manaus: Reggo Edições, 2012.


COSTA, Deusa. Quando viver Ameaça a ordem urbana: Trabalhadores de Manaus(1890/1915), Manaus: Editora Valer / FAPEAM, 2014.  

DIAS, Edinea Mascarenhas. A ilusão do Fasto: Manaus 1890 – 1920. 2° Ed. Manaus. Editora: Valer, 2007.

FUNARI, Pedro Paulo de Abreu e PELEGRINI, Sandra de Cassia Araujo.  Patrimônio Histórico Cultural, Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Ed., 2006.

LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: Unicamp, 1990.

LEMOS, Carlos A. C. O que é Patrimônio Histórico. São Paulo: Brasiliense, 2004 – (coleção primeiros passoos; 51)

PINHEIRO UGARTE, Maria Luiza. A cidade sobre os ombros: Trabalho e conflito no porto de Manaus (1899-1925),  ADUA 2° Ed. Edições Governo do Estado.





[1] Formado em Historia pela Universidade Federal do Amazonas UFAM, cursando o programa de especialização em Patrimônio Histórico cultural nos centros urbanos, pela Faculdade Metropolitana de Manaus – Fametro 

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